Alma forte e coração sereno

Alma forte e coração sereno! Se entrares assim, se te portares lá dentro, assim, podes então querer e serás servido!

(Simões Lopes Neto, “A Salamanca do Jarau”)

 

Linha reta, equilíbrio e prumo. Gravidade, imperícia e queda. Polegar opositor e espinha ereta. O polegar opositor define os primatas, ainda que não seja uma característica exclusiva dessa ordem, já que os gambás também o possuem. Os gambás, porém, não constroem galinheiros, embora apreciem ovos de galinhas abrigadas em viveiros. Os gambás equilibram-se em fios bem esticados entre postes verticais, alinhados com a noite, e caminham matreiramente até o ninho. Gambás se achatam e atravessam frestas. A vida independe do polegar opositor, da coluna ereta; da manufatura e do contrato.

 

Acidente, tombo e fracasso. Tropeço. Desajeito. Monotonia. Erro. Civilidade. Conserto. Remendo. Toda a paciência do mundo. Um homem se equilibra a custo. Resignação. Um marceneiro. A vida independe da marcenaria, mas que ela ajuda, ajuda. A arte independe da marcenaria, da coluna ereta, mas que ela ajuda, ajuda. Desmoronamento.

 

Empilhamento e sobras. Tortura, resto e desconforto. Prova dos nove. O diabo a quatro. Dois é bom, três é demais. Hipotenusa. Adição, desmoronamento. Qualquer criança faz.

 

Inaptidão. Teimosia. Inutilidade. A arte não depende do ofício, pois nem arte, nem ofício têm pernas que os ponham em pé. Abstração. A escultura; esta existe. O homem existe. A escultura depende do homem que a põe em pé. Nem arte, nem ofício. Homens ordenam o mundo. Uma coisa em cima da outra. Desmoronamento.

 

Alma forte e coração sereno, amigo. Se assim te portares, lá dentro, serás servido.

 

  Maria Helena Bernardes, outubro de 2012.

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